O que é gestar? Estar completamente entregue ao domínio do princípio feminino, conhecido como Yin na filosofia chinesa. Aqui não estamos falando sobre papéis de gênero, sobre o que a sociedade espera e exige de homens e mulheres, mas sim de construtos psíquicos.

Todos nós somos frutos de uma dança eterna entre esses dois princípios, masculino e feminino. O masculino, Yang, está relacionado à ação, à claridade, à espada. É a força que temos para levar nossos projetos para o mundo, para nos fazer ouvir, para plantar nossas sementes.

O feminino, Yin, relaciona-se à receptividade, à escuridão, ao cálice. É a energia da espera, da frutificação dos projetos, do silêncio criativo, da gestação de pessoas e sonhos.

Cada ser humano possui os dois polos masculino-feminino, yin-yang dentro de si. Todos vivenciamos a época de plantar, de gestar e de colher. Porém, a sociedade altamente conectada e focada em resultados na qual vivemos nos direciona para uma exuberância do polo masculino. Precisamos fazer muito, mostrar o que fazemos e alcançar grandes resultados para nos sentirmos produtivos e úteis. A máxima “trabalhe enquanto eles dormem” é encarada como fórmula de sucesso a ser seguida por todos que querem “vencer”. O que essa necessidade de ação e produtividade desenfreada esconde é o medo profundo que temos de não sermos dignos de viver se não estivermos produzindo initerruptamente.

O que acontece então com a mulher que se descobre grávida? A gestação é, por si só, um mergulho no princípio feminino. É o momento da espera, da germinação da semente e, também, da primazia do corpo sobre a razão.

O princípio masculino Yang está relacionado com a razão, o pensamento essa substância etérea que chamamos em Psicologia Analítica de espírito. O princípio feminino, por outro lado, associa-se ao corpo e às emoções. Nem preciso dizer que, desde o Iluminismo, somos a sociedade da razão. Corpo e emoções são relegadas a segundo plano, depreciados e vistos com desconfiança.

Não é raro que tenhamos pouca ou nenhuma intimidade com nosso próprio corpo e seu funcionamento e que não saibamos identificar e nomear nossas emoções.

Na gestação, todavia, o corpo é soberano. Ele assume o controle, deixando a razão no banco do passageiro. Mudanças corporais e emocionais são a tônica de todo o processo de gestar. A mulher, vivendo nesta sociedade que privilegia o masculino enrijecido e doente, não sabe se entregar ao desconhecido do feminino. Tem medo das transformações que terá que passar, do corpo e do grande desconhecido à frente: o parto e o encontro com o bebê.

Muitas dificuldades enfrentadas durante a gestação e que se estendem no puerpério derivam do fato de não sabermos mais viver nosso polo feminino. Somos cíclicas, mudamos a cada semana e estamos mais conectadas com a natureza do que imaginamos. Porém, muitas de nós desconhecem ou não vivem esses ciclos, que são interrompidos de forma medicamentosa, por necessidade ou escolha.

Quando não é mais possível fugir desse contato verdadeiro com nosso corpo, quando ele se torna soberano e nos puxa para o contato íntimo com ele, nossa reação pode ser de pavor ou consternação.

A sociedade, por outro lado, continua sua corrida frenética a rumos desconhecidos. Prossegue exigindo produtividade, ação, desempenho. Mas o corpo chama para a introspecção, o sono, o repouso. São duas forças antagônicas que geram um bocado de conflito.

Isso sem contar nas várias opressões e vulnerabilidades às quais estamos expostas, como falta de rede de apoio, desemprego, gestação solo, racismo, machismo e outras incontáveis.

Para se entregar ao processo de gestar, para mergulhar no princípio feminino, a mulher precisa estar primeiramente segura de que tem recursos para sua subsistência e apoio emocional. Sozinha, é muito difícil desligar um pouco a razão, por uma questão de sobrevivência.

Mas mesmo quando essa segurança existe, tememos nos deixar apenas viver, apenas sentir, nem que seja por alguns momentos.

As mulheres que eu acompanho, gestantes e puérperas, sem exceção e, independentemente de seus momentos de vida, temem essa entrega e se sentem culpadas pela diminuição da produção. Como se gestar, parir e criar um ser humano não fosse produção o bastante!

Ouvi uma mulher uma vez dizer, quando alguém lhe cobrava algo, a seguinte frase: “Agora não posso, estou fazendo uma orelha”. É isso. Enquanto parece que você está apenas existindo, está produzindo um ser humano do zero! Está repassando suas vivências enquanto filha e criando sua futura identidade enquanto mãe. Não vejo nada mais produtivo e importante do que isso.

Eu sei que o mundo é muito mais complexo e difícil do que seria se ainda vivêssemos como nossas ancestrais, completamente ligadas à natureza e vivendo nossos ciclos de forma orgânica. Mas, na medida do seu possível, te convido para mergulhar nessa experiência corporal única que é a gestação, para adentrar a profundidade dos seus silêncios e encontrar a verdade da sua essência. Haverá novamente o momento da ação e dos projetos. Mas agora é tempo de apenas viver.