Hoje, depois de inúmeras coisas que deram errado aqui (oi, Mercúrio retrógrado), encontrei (não por acaso) um post da querida Elisama Santos sobre filhos parentalizados que calou fundo aqui. Quanto da minha ansiedade e dificuldades hoje são resultado direto de ter sido uma criança muito sensível às emoções dos adultos, que aprendeu desde cedo a acolher e compreender e colocar as necessidades dos outros antes? Não é à toa que me tornei psicóloga, não é mesmo?

Ser uma criança boazinha, responsável, “madura pra idade” não é bom, não é saudável. É trauma. Quantas vezes ouvi de meus pacientes (e de mim mesma, confesso!): “Não sei porque tenho esses sintomas (ansiedade, depressão, vícios, dificuldades de relacionamento, doenças crônicas-a lista é imensa!) se eu nunca passei por nada muito traumático. Ninguém morreu, não apanhava quando criança, tinha uma família amorosa. Tanta gente que passa por muito pior! Devo ser muito fraca!”.

A verdade é que, a morte de alguém, um desastre ou uma violência explícita, por mais difíceis que sejam, são entendidos como trauma. Há um maior reconhecimento daquela experiência e uma permissão para sofrer. O trauma emocional é insidioso e muito profundo. Geralmente não é um evento único grandioso, mas uma série de pequenos eventos que acontecem ao longo de anos. E, como ninguém percebe isso como trauma, nem pais, sociedade ou a própria pessoa que vivencia, pode continuar se repetindo no tempo. A verdade é que ninguém quer traumatizar uma criança. Mas adultos traumatizados, que não percebem seu trauma, têm uma chance enorme de repetir o trauma com os filhos. Se eu tive que ser uma criança boazinha, entender a necessidade da mamãe, acomodar o papai, então espero que meus filhos façam o mesmo por mim agora, certo?

Criança não tem que entender, não tem que acomodar os sentimentos dos pais, não é confidente e nem rede de apoio. Criança precisa ter suas necessidades emocionais atendidas para que possa crescer ciente de seu valor como pessoa e aprenda a cuidar de si primeiro.

Para todos nós, crianças parentalizadas, meu carinhoso abraço! Foi trauma, sim. Deixe sua criança interior triste, ansiosa e raivosa se expressar. Deixe-a chorar a infância perdida. Deixe-a reconhecer seu valor e dar importância às suas necessidades de um jeito que ela nunca pôde antes. Deixe-a viver agora, se maravilhar com o mundo, brincar. Só assim quebraremos esse ciclo maldito de trauma e poderemos ter esperança numa geração futura mais feliz. Se precisar de ajuda nesta jornada, conte comigo.

#trauma #criançaparentalizada #infância #maternidade #psicologiaanalítica #filhos #lumiar